CRESCER: 72% das mães de favelas dizem que drogas ao ar livre atrapalham brincadeiras de crianças



Uma pesquisa com 816 mães de crianças entre 0 e 6 anos que moram em favelas no Brasil apontou que o fator que mais atrapalha as brincadeiras dos pequenos fora de casa, sendo citado por 72% das participantes, é o uso de drogas ao ar livre. Mais da metade (64%) afirma também que a violência na comunidade onde vive e o tráfego de carros (59%) prejudica o brincar na rua. O estudo, realizado pelo Data Favela, foi divulgado na última semana durante o Webinar Direito do Brincar: da Teoria à Prática, organizado pela Aliança pela Infância e o movimento Unidos pelo Brincar.


Os dados foram coletados em setembro de 2020 através de questionários. Para Renato Meirelles, fundador do Data Favela e presidente do Instituto Locomotiva, entidades que desenvolveram a pesquisa, o estudo mostra que a brincadeira para as crianças que moram em favelas é um “luxo e não um direito”. “A favela é um território onde o estado muitas vezes não está presente e a desigualdade do Brasil aparece de forma evidente”, disse Meirelles. “Nossos dados mostraram que as mães dessas comunidades periféricas têm um grande entendimento sobre a importância do brincar para o desenvolvimento e o processo de aprendizado das crianças, mas elas enfrentam muitas dificuldades com a jornada dupla de trabalho e a falta de infraestrutura local para conseguir proporcionar esse tempo para os filhos. A situação ficou ainda pior na pandemia”.


Apesar de as participantes terem dado uma nota média de 9,2, entre 0 e 10, para a importância das brincadeiras no desenvolvimento das crianças, metade das mães afirmou que a pandemia tornou mais difícil encontrar tempo para brincar com os filhos. Com a ausência da escola, 88% disseram recorrer às telas quando não é possível dar atenção às crianças e 68% revelaram ter tido dificuldade de conciliar as tarefas domésticas com o cuidado com as crianças.


O número de crianças que brincava com frequência na casa de vizinhos e parentes nas comunidades também aumentou consideravelmente durante a pandemia, passando de 39% para 54%. “Com a suspensão das aulas por causa da covid, o senso de coletividade nas favelas ficou ainda mais forte. Muitas mulheres tiveram que continuar trabalhando presencialmente e a casa do vizinho acabou se tornando uma extensão da própria casa para muitas crianças, onde elas poderiam ser acolhidas enquanto a mãe estava fora. Os irmãos mais velhos também acabaram assumindo bastante essa responsabilidade de cuidar dos menores com a ausência da escola”, explica Meirelles.


O estudo revelou ainda que as crianças passaram a brincar mais tempo dentro de casa na pandemia. Antes, 63% dos pequenos tinham o espaço de casa como um dos principais locais de brincadeira, número que saltou para 85% por causa da covid. A falta de estrutura de lazer para crianças também se mostrou um impeditivo grave para as brincadeiras e apenas 29% das mães disseram dispor de um parquinho na comunidade. “Essas disparidades em relação ao brincar, que começam ainda na primeira infância, agravam ainda mais a desigualdade do nosso país”, afirma Meirelles.


Para combater os problemas identificados pelo estudo, o pesquisador defende a implementação e ampliação de programas de distribuição de renda, como o Bolsa Família, a preferência para a retomada presencial das aulas nas escolas da periferia e o investimento em infraestrutura pública, como parquinho, que permita brincadeiras ao ar livre com segurança.


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