R7: Socos, pontapés e assédio: como professores enfrentam a violência

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R7: Socos, pontapés e assédio: como professores enfrentam a violência

10.16.2018

 

 

 

 

 

Leia o artigo completo abaixo:

 


"Socos, pontapés e assédio: como professores enfrentam a violência

 

Levantamento mostra ainda que 51% dos professores já sofreram pessoalmente algum tipo de violência em suas escolas estaduais de SP

 


 

 

Por Fabíola Perez em 06/07/2018 em R7

 

 

O professor de matemática Márcio da Silva Gomes mudou de profissão e hoje se dedica ao mercado de construção civil. A imagem de quatro alunos impedindo sua passagem para dar início a um confronto no corredor de uma escola estadual entre Bragança Paulista e Atibaia, o aterroriza desde agosto do ano passado. A professora de educação física, Ana Luisa Mascherpe, começou a gritar quando saiu do trabalho e se deparou com o carro pichado de palavras afrontosas. Jeferson Siqueira, professor de artes, foi golpeado com uma cadeira após repreender um aluno em sala de aula.

 

Para 84% dos professores, a sensação é de que a violência nas escolas públicas aumentou nos últimos anos em São Paulo. De acordo com uma pesquisa realizada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo, em parceria com o Instituto Locomotiva, 61% dos professores classificam suas escolas como violentas. Para esses profissionais, três fatores são responsáveis pelo aumento da violência nesses ambientes: a educação em casa, drogas e álcool e conflitos entre adolescentes.

 

O levantamento mostra ainda que 51% dos professores já sofreram pessoalmente algum tipo de violência em suas escolas estaduais. Embora a agressão verbal seja o tipo de violência sofrida pelos professores mais recorrente, uma vez que atinge 44% dos educadores, bullying, agressão física, furtos e roubos e discriminação atingem juntas 28% dos professores.

 

Outra publicação organizada pelo Instituto Península, em parceria com a Escola de Educação da Universidade de Harvard, elegeu o tema da violência como um dos mais importantes entre os 22 dilemas enfrentados por professores, diretores e coordenadores de todo o País.

 

"Depois daquele dia nunca mais voltei"

 

Por volta das 9h do dia 3 de agosto, Márcio da Silva Gomes tentava explicar como resolver uma equação aos alunos do Ensino Fundamental quando foi interrompido por um estudante de 16 anos de outra sala que buscara um aparelho celular com o colega. “Ele não era meu aluno e já chegou entrando. Os alunos olharam para mim para eu tomar alguma providência.”

 

Na porta da sala, uma funcionária chamou sua atenção por ter entrado sem autorização. “Ele deu um soco em seu braço e a ameaçou, dizendo que a ‘pegaria’ no intervalo”, relata o professor. “Depois disso, conversei com ela e a orientei para falar sobre o caso diretamente com a coordenadora. Mas ela não atendeu e conversou novamente com o garoto”, diz Márcio. Minutos depois, o professor afirma que se encaminhou para a sala dos professores quando foi surpreendido pelo adolescente e mais três jovens em um dos corredores. “Levei socos no rosto e pontapés pelo corpo”, lembra.

Segundo o educador, todos os colegas manifestaram indignação. A diretoria da escola, porém, de acordo com ele, não tomou nenhuma medida. “Liguei para a polícia e fui sozinho fazer o boletim de ocorrência em Atibaia”, diz. “Tudo o que me passava pela cabeça era que fazemos tudo pelos alunos e recebemos socos e pontapés de volta?” Depois do ocorrido, Márcio afirma que nunca mais voltou à escola que lecionava. “Não vale a pena sair de casa para isso”, diz ele.

 

Desde o episódio de agressão, Márcio passou a trabalha no setor de construção civil e não pretende voltar às salas de aula. “Naquela época, dava aula em duas escolas e quando me deparei novamente com uma turma de alunos não consegui conter o choro: tive que pedir licença e parei para chorar por dois minutos”, diz.

 

Márcio afirma que a agressão o fez alcançar seu limite e uma estrutura que, segundo ele, condenava todos a uma rotina de precarização. “Infelizmente, tive que deixar às salas de aula. Não temos suporte, nem ajuda de ninguém e quando uma situação dessas acontece, sempre ficamos com aquilo na cabeça: será que vou passar por isso de novo?”

 

“Disseram que era uma tempestade num copo d’água”

 

A professora de educação física Ana Luisa Mascherpe Neves, 26 anos, de uma escola estadual de Campinas, em São Paulo, prometeu a si mesma que não deixaria o assédio que sofreu interferir em sua carreira. “Eu passava e os alunos mexiam comigo”, diz. “Chegou uma hora que eu explodi e disse que exigia respeito e que não iria aceitar que isso acontecesse novamente”, diz. “Nesse mesmo dia, fui falar com a diretora e avisei que se a situação não melhorasse, não sabia o que poderia fazer.”

 

Ao sair da escola, a professora de educação física encontrou o carro pichado com desenhos e frases ofensivas. “Voltei para a escola gritando, pedi ajuda à direção e eles me ofereceram um pano para limpar, que, obviamente não era o que gostaria.” A escola em que Ana lecionava não possuía câmeras de segurança, o que dificultou a chegada aos responsáveis pela agressão. “Fui num psiquiatra e consegui um afastamento por 15 dias. Depois, tirei férias em julho, mas em agosto tive que voltar”, diz.

 

Em agosto, Ana pediu exoneração. “Não chegou a me impedir de dar aulas, mas para o Estado não volto mais”, diz. “Fiz o boletim de ocorrência, mas não tive como provar quem foram os responsáveis, não aconteceu nada. Ainda me disseram que estava fazendo uma tempestade em um copo d’água. Me mandaram contratar um segurança.”

 

“Quem você pensa que é para mandar em mim?”

 

A publicação do Instituto Península revelou o caso de um professor de uma escola do interior de Minas Gerais que sofrera ameaças de um aluno no Ensino Médio. Tudo começou quando o professor André* teve de chamar a atenção do jovem de 16 anos durante a aula. “Quem você pensa que é para mandar em mim? Você não manda nada aqui! Você é só professor e não estou nem aí para você! Se coloca no seu lugar! Olha como fala comigo ou você vai ver!”, diz o estudo.

 

Em conversa com colegas da mesma instituição, o professor foi informado de que parte da família do jovem cumpria pena em um presídio e que o garoto estaria envolvido em atividades para o tráfico de drogas. Além disso, a mãe tinha problemas mentais e o pai e os irmãos estavam presos havia anos. A ameaça adquiriu ares ainda mais graves quando uma colega da instituição que o jovem teria ameaçado o professor de morte depois de ter sido flagrado por ele “matando aula”. Colegas aconselharam o professor a se afastar da escola por meio de uma licença médica.

 

Por trás das ameaças

 

De acordo com o pesquisador do Núcleo de Violência da Universidade de São Paulo, Renato Alves, essas manifestações de violência em sala de aula são, na verdade, pontas de um iceberg. “Há uma série de fatores que motivam esses atos, como a vulnerabilidade desses jovens e a precarização das condições oferecidas aos professores”, explica.

 

“A escola é um espaço de socialização, mas, na prática, expõe diversos conflitos”, afirma. Nos casos que envolvem adolescentes com algum tipo de conflito com a lei ou em cumprimento de alguma medida de ressocialização a situação é ainda mais complexa.

 

Secretaria de Esducação

 

Em nota, a Secretaria da Educação do Estado de São Paulo  afirma que entende que o enfretamento à violência no ambiente escolar deve ocorrer em diversas frentes, que englobam polícia, comunidade escolar e família. A pasta promovediversas ações pedagógicas e projetos interdisciplinares sobre temas como prevenção ao uso de drogas, violência e bullying. Além disso, há trabalhos que incentivam a cultura de paz e o protagonismo juvenil. Polícia, Ronda Escolar, Conselho Tutelar e Ministério Público também atuam em conjunto com a Educação.

 

A Secretaria ainda ressalta que desenvolve, desde 2009, em todas as escolas paulistas, o Sistema de Proteção Escolar, programa que orienta as equipes gestoras e apoia professores e alunos envolvidos em situações de vulnerabilidade. Entre as ações do programa há professores-mediadores, que são educadores capacitados para criar ações nas escolas estaduais e ainda aproximar a comunidade das unidades em campanhas de prevenção à violência, racismo e outras formas de discriminação. Inclusive, as escolas dos casos citados pela reportagem possuem professores-mediadores e atividades preventivas com os estudantes.

 

 

 

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